Engenharia da fuga: como agem os presos na escavação de túneis no Estado?

O Rio Grande do Norte registrou nos primeiros 140 dias deste ano a fuga de mais de 200 presos do Sistema Penitenciário. A maioria desses detentos conseguiu escapar através de túneis, segundo a Secretaria do Estado de Justiça e Cidadania (SEJUC).
E o que chama atenção, causando curiosidade sobre esse tipo de ‘recurso’ usado para fugir dos presídios, é como os detentos conseguem escavar passagens gigantescas por debaixo do chão, sem que ninguém perceba. Eles atuam como verdadeiras toupeiras, animais que vivem no subsolo, enterrados em tocas, cavadas por eles próprios.
De acordo com Aurivaneide Lourenço, diretora do Complexo Penal Estadual Agrícola Dr. Mário Negócio de Mossoró, os presos trabalham de forma bem organizada e em horários com menos movimentação de agentes nos pavilhões.
“Eles cavam nos dias de visitas, quando há uma intensa movimentação de pessoas, e à noite, quando estão sozinhos nos pavilhões”, contou. Desde que assumiu a diretoria da penitenciária, há três meses, oito túneis já foram encontrados.
Em entrevista ao jornal MOSSORÓ HOJE, Aurivaneide explicou que as passagens são escavadas com eixos de ventiladores, baldes, potes de margarina e até panelas. Os presos cortam o piso de cimento no centro da cela ou no local onde está instalado o sanitário, para aproveitar o sistema de esgoto, e iniciam a escavação.
A terra é retirada do buraco e colocada em lençóis, toalhas e camisetas que são costuradas por eles e transformadas em sacos.
Quando o “dia de trabalho” acaba, eles colocam os sacos dentro do túnel e o fecham. Para evitar que os agentes penitenciários descubram o que está sendo feito, os detentos camuflam o piso violado com uma mistura de sabonete, sabão, pasta de dente e até cinzas de cigarros.
Este trabalho é repetido várias vezes por cerca de um mês, até que o túnel esteja pronto para a fuga.
Mesmo convivendo com esta realidade há mais de seis anos, Aurivaneide revela que ainda se surpreende com a capacidade dos presos em construir as passagens.
“Fico pensando: como é que eles têm coragem de passar por ali e não tem medo daquilo desabar em cima deles?”, questionou.
Ela ressaltou que todo este trabalho dos detentos para fugir é resultado, dentre outros fatores, da estrutura precária das unidades prisionais.
“Aqui na Mário Negócio, o principal fator é o projeto, que não previu esse tipo de fuga por túneis. É uma estrutura de 1978 e possui uma camada de concreto muito fina no piso. Também tem a superlotação, que ajuda muito, e o uso de drogas, que deixa os presos ansiosos e loucos para sair”, detalhou.
A diretora citou ainda como deficiência a pouca quantidade de agentes penitenciários. Ao todo, são seis agentes para mais de 560 detentos, um déficit de 95%. Especialistas em segurança pública recomendam um agente para cada cinco presos.
“Se tivéssemos o número de agentes adequado, conseguiríamos reduzir essas fugas em 80% a 90%”, concluiu Aurivaneide.
Para tentar reverter este quadro, a Secretaria de Justiça e Cidadania informou ao MOSSORÓ HOJE que está prevista a abertura de mais de 2,2 mil vagas no sistema carcerário.
Essas vagas serão abertas por meio de reforma e ampliação de unidades prisionais já existentes, com a construção de uma nova penitenciária em Mossoró e da Cadeia Pública de Parnamirim, além da conclusão da Cadeia Pública de Ceará-Mirim, prevista para o final deste ano.
A Secretaria destacou ainda que fará a contratação temporária de agentes penitenciários, comprará novos equipamentos para vistoriar os detentos e transferirá presos perigosos. Todas essas medidas estão previstas para serem executadas no prazo de 12 meses.

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