Natal dos excluídos: o que espera quem não tem por quem esperar?

Quando à meia-noite de amanhã, 24 de dezembro, muitas famílias estiverem reunidas em torno de uma mesa farta, celebrando o Natal, Fernanda, Deuzenildo, Marileuza e tantos outros estarão no mesmo lugar dos últimos dias, meses, anos: a rua, residência oficial de quem não tem endereço onde morar.
A equipe de reportagem do MOSSORÓ HOJE ouviu os relatos de três personagens que não esperam uma Noite Feliz amanhã. São moradores de rua, que vivem às margens da sociedade e não terão a companhia de familiares, nem tantos motivos de celebração do Natal.
É o caso de Deuzenildo Costa, 33 anos, 19 deles morando na rua. Natural de Jaguaretama, Ceará, o hoje flanelinha saiu de casa aos 14 anos, e desde então não possui endereço fixo. Pai de quatro filhos, seu maior desejo para o Natal era poder rever as crianças, que moram com familiares no estado vizinho.

“Mas não tenho como ir e, se tivesse, como iria chegar lá sem levar nada para os meus filhos? Também faz dois anos que não vejo minha mãe, não tenho nenhum contato com a família”, conta Deuzenildo, com lágrimas escorrendo pelo rosto, lágrimas que foram enxugadas não com lenço, mas com a flanela que usa para o seu trabalho diário.
O flanelinha, que dorme todas as noites nas proximidades da Igreja de São Vicente, trabalha no entorno da Catedral de Santa Luzia há pouco mais de um ano. Antes, já havia percorrido cidades de estados como Bahia, Pernambuco e Espírito Santo.
“Fui expulso de casa aos 14 anos porque discutia muito com o meu pai, que batia na minha mãe. Desde então moro na rua, e acabei me viciando em álcool, vício que tenho até hoje, confesso. O mais difícil de viver na rua é a fome, hoje já não passo mais, porque trabalho, e ganho às vezes R$ 20, R$ 30 por dia”, conta Deuzenildo, revelando ainda que metade do que arrecada é usado na compra de bebida alcóolica.
Deuzenildo ainda complementa: “Só Deus sabe o que passo aqui na rua, e só Ele está me ajudando. Não tenho ninguém aqui, família, amigos. Estou há três dias com a mesma roupa, a batalha e o sofrimento são grandes”, comenta Deuzenildo, que ainda viaja, de bicicleta, todos os domingos para o município de Baraúna, onde também trabalha como flanelinha na feira realizada na cidade.
Fé e Oportunidade
Aos 37 anos, Marileuza Ferreira passará mais um Natal na rua. Tem sido assim há quase duas décadas, desde que deixou a casa dos pais e começou a usar drogas, com apenas oito anos de idade.

Seu desejo para o Natal? Uma oportunidade de emprego e de reestruturar a vida, recomeçar a sua história, interrompida antes mesmo de realmente começar.
“O Natal será um dia comum, porque a gente não tem nada de bom, mas se eu pudesse pedir alguma coisa, seria para a sociedade olhar pra gente que mora na rua, nos dar uma oportunidade”, diz.
Mulher de fé, devota de Santa Luzia, Marileuza Ferreira, conta – entre uma tosse e outra que denuncia a sua condição de usuária de crack – que saiu de casa porque o pai bebia muito, e não aguentava mais aquela situação.
“Às vezes, a gente só vale o que tem. Já tentei morar com alguns familiares, mas depois de uma semana, duas, ficam com cara feia. O mais difícil também é a falta de apoio da sociedade, porque discriminam a gente. Eu quero sair dessa vida, porque até agora não tive nada de futuro”, revela.
Mãe de três filhos, que moram com a vó, aqui em Mossoró, Marileuza comenta que já trabalhou como empregada doméstica, mas que as condições humilhantes do emprego a fizeram desistir. “Muitas vezes não sobrava nem arroz e feijão para eu comer”, acrescenta.

A vontade de conseguir uma nova oportunidade de emprego fica evidenciada em diversos momentos da conversa entre Marileuza e a equipe de reportagem do MOSSORÓ HOJE. “Quero uma oportunidade para ganhar o meu dinheiro dignamente”, reforça.
A moradora de rua encerra a entrevista enfatizando o desejo de mudar a sua história de agora em diante. “Tenho muita fé em Deus de sair um dia dessa vida”, conclui Marileuza Ferreira.
“Espero do Natal que Jesus me abençoe e eu saia dessa”, afirma usuária de crack
Há 15 anos, as ruas de Mossoró são o endereço de Fernanda Félix. Ela, natural de Natal, veio no ano 2000 ao segundo maior município do Rio Grande do Norte com uma amiga festejar o carnaval. Nunca mais voltou.
“Era casada, mas uma amiga me chamou para conhecer Mossoró, chegando aqui ela me levou para um brega, lá comecei a beber, vi as meninas fumando, senti curiosidade e me viciei. É difícil sair das drogas, peço todos os dias a Deus que me liberte. ‘Me acho’ (sic) fraca por não conseguir sair, mas o que posso fazer?”, questiona.
Para a Noite de Natal, Fernanda só tem um pedido: “Espero que Jesus me abençoe e eu saia dessa. Se eu sair das drogas, vou ser a mulher mais feliz do mundo, vou voltar a ser normal”, afirma ela, que desde que começou a morar na rua é usuária de crack.
Segundo Fernanda, o maior problema para deixar a dependência das drogas está no seu convívio diário com outros viciados. “‘Me habituei’ (sic) muito com as pessoas que são usuárias, no meio delas é difícil sair, eu não vou conseguir. Elas não acordam a gente para dar um prato de comida, para saber se você está com fome, acorda para dar droga”, destaca.

Sobre viver na rua, Fernanda Félix conta que a maior dificuldade é a discriminação. “Olham a gente como se fôssemos um lixo, um cachorro, nos humilham, menosprezam. A pior coisa do mundo é a discriminação”, lamenta.
Questionada se ama mais às drogas do que a si e à própria família (Fernanda é mãe de quatro filhos, o mais novo com 12 anos e o mais velho com 18, todos morando em Natal), a resposta é objetiva:
“É como os médicos dizem, nós somos doentes. Achamos que a droga é tudo, mas não é não. Passei uma semana sem fumar, mas comecei a ter pesadelo com as drogas. Se eu me amasse e amasse minha família, estaria com eles.”, finaliza Fernanda.
As histórias, os depoimentos de cada um dos moradores de rua ouvidos pelo MOSSORÓ HOJE mostram que, mesmo diante de um cenário de dor, aqueles que encontram graves obstáculos no caminho da vida não perdem completamente a esperança em dias melhores, sentimento que acaba sendo alimentado nesse período de confraternização mundial.   

FONTE: Mossoró Hoje

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