“No Brasil, não é valorizado o erro. Só erra quem faz”

Lindália Reis, hoje diretora nacional de inovação da Estácio, foi selecionada, em 2010, como líder de empreendedorismo e inovação pela NASA Singularity University. Também foi responsável pelo Programa de Inovação “I9”, da Rede Globo e conquistou o prêmio Internacional de Inovação do IBC Awards 2012. Este fim de semana está em Natal, participando de evento de Startups no Metrópole Digital e falou com a TRIBUNA DO NORTE sobre a necessidade de incentivar os jovens a empreender e inovar. Eis a conversa:
Lindália Reis – Diretora nacional de inovação da Estácio

Empreendedorismo, criatividade e inovação. Esses conceitos já são bem utilizados na educação brasileira?
Brasileiros costumam ter um DNA criativo e de buscar soluções diferentes quando enfrentam alguma situação difícil no dia a dia. Porém, ainda não faz parte do modelo educacional brasileiro criar essa cultura nas escolas e universidades, muito menos de apoiar uma carreira empreendedora. Hoje há uma forte onda de jovens que pensam em fazer concurso público para buscar estabilidade profissional e que poderiam investir sua energia em inovar e criar seu próprio negócio, sua própria startup. São quase 10 milhões de jovens brasileiros entre 15 a 29 anos, a chamada geração ‘nem-nem’, que nem estudam, nem trabalham e nem procuram…. Nosso desafio na educação no Brasil é despertar o interesse desse jovem em buscar conhecimento, abrir novas oportunidades profissionais e acreditar que eles podem inovar e empreender. Na nossa missão de “educar para transformar” na Estácio, apoiamos o movimento de empreendedorismo através de vários projetos como o Startup Weekend Education que acontece esse fim de semana em Natal. E lançamos em março o Espaço NAVE (Núcleo de Aceleração e Valorização da Estácio) no Porto Maravilha, Rio de Janeiro, um andar de 800m2 com as salas de aula do futuro, e espaço gratuito de trabalho para os empreendedores selecionados para o 1o Programa gratuito de Pré Aceleração de Startups no Brasil. Queremos transformar a educação e sermos a Universidade mais inovadora e empreendedora do Brasil para dar a oportunidade aos nossos jovens brasileiros de acreditarem no seu futuro.
Quais são os países que hoje mais desenvolvem esses conceitos e como está o Brasil em relação essas metodologias?
Segundo pesquisa da Global Entrepeneurship Monitor (GEM), coordenada pela London Business School da Inglaterra e pelo Babson College dos Estados Unidos, em uma lista de trinta e quatro países, o Brasil está entre os sete que mais empreendem, ao abrir novas empresas. Entretanto, os dados mostram que depois de três anos de vida, 60% das novas empresas fecham suas portas e uma das maiores causas é a falta de preparo em gestão e modelo de negócios. Falta realmente incentivar uma educação empreendedora com novas ferramentas de modelo de negócios sustentáveis. Nosso programa de pré aceleração está focado justamente em criar um modelo inovador de educação empreendedora aplicada na prática direto nos projetos dos startups, desde a concepção do protótipo à validação das hipóteses do problema real que estão impactando no mercado. O conhecido Vale do Silício na Califórnia, nos Estados Unidos, surgiu na década de 1950, com o objetivo de gerar inovações científicas e tecnológicas, destacando-se na produção de circuitos eletrônicos e informática, e aos poucos foram atraindo para a região várias empresas como Apple, Google, Facebook, Nvidia, eBay, HP, Intel etc. próximo a universidades como por exemplo a Universidade de Standford, que ajudou a formar um ecossistema empreendedor, colaborativo e atrativo para outros empreendedores e investidores. Fora dos Estados Unidos, destaca-se em Israel, o Silicon Wadi, a segunda maior aglomeração de tecnologias de ponta.
Pesquisa recente mostra que o Brasil tem baixo nível de inovação, e que as Startups existentes são cópias de ideias já experimentadas em outros países… como alterar esse referencial?
O baixo nível de inovação no Brasil está associado ao baixo investimento e falta de incentivo governamental em pesquisa e desenvolvimento. Por mais que existam linhas de fomento como por exemplo a Finep, leis de renúncia fiscal como a lei do bem ou lei de inovação, faltam projetos realmente inovadores. Dinheiro tem, mas faltam investirmos realmente para criar uma geração de inovadores. E falta essa conexão direta entre a maioria das universidades e as empresas. Costumo dizer que não se consegue ter craques de futebol, se não tivermos as escolinhas preparando esses jogadores por pelo menos 10 anos antes da disputa. Como na última Copa do Mundo, o time vencedor preparou e investiu muito tempo na equipe.Na última pesquisa da Endeavor, seis entre 10 universitários querem empreender.  Isso já é o primeiro passo, a vontade de empreender e a atitude de arriscar e não ter medo de errar. 
O problema da falta de empreendedorismo está mais na educação de base ou nas universidades?
Está na falta de um ecossistema inovador, que conecte empresas, institutos de pesquisas, universidades, comunidades empreendedoras, investidores, tudo junto e misturado, buscando resolver algum problema real do mercado que gere impacto e seja escalável. Enquanto não nos integrarmos, não conseguiremos mudar o cenário atual. Temos que ouvir o mercado e buscar essas parcerias. Também acreditamos muito que se essa cultura empreendedora for estimulada desde cedo, mais chances de, ao ingressar na universidade, já estejam mais abertos a buscar conhecimento adequado para a criação de startups de alto impacto. Nos Estados Unidos, existem escolas que iniciam o programa com apenas 8 anos de idade. 
O que não pode faltar no currículo de um jovem que queira ser empreendedor?
Atitude empreendedora. Ou seja, uma vontade imensa de aprender, de fazer acontecer, sem medo de errar e de arriscar. Empreender não é fácil. Se na primeira dificuldade do negócio, ou de mudança no mercado, o empreendedor não tiver um propósito genuíno de continuar na luta, então não tem investimento que faça esse barco virar. Você tem que colocar muita energia, buscar descobrir novos caminhos, dedicar tempo, dinheiro e, principalmente, acreditar no que faz. Ter humildade de saber que nada sabe. Mesmo que já tenha dado algum resultado positivo. Aqui no Brasil não é valorizado o erro. Só erra quem faz. Então, a maioria dos investidores vai perguntar quantas vezes o empreendedor já tentou, já falhou para que aposte que agora tem mais chances de sucesso.
Você coordena um trabalho que tenta projetar uma sala de aula do futuro. O que tem nessa sala de aula? O que nunca deixará de ter e o que é mais inovador?
No projeto da sala de aula do futuro, experimentamos desde modelos diferentes de mobiliário que permita que os alunos e professores criem dinâmicas e possam aplicar o desenvolvimento de projetos na própria sala, até um novo tipo de equipamento que explore todos objetos de aprendizagem como aplicativos, simuladores, Games, videos. Conectados a internet e interativos com os diversos dispositivos móveis dos alunos como tables e celulares. Criamos o ICAD (Interface conectada de apoio ao docente) , uma espécie de TV touch inteligente, ou alguns dizem que parece um tablet gigante. É a primeira patente da Estácio, que vai entrar agora em linha de produção industrial.Também fazemos parte do grupo do projeto chamado Ensino 2020 para desenvolvimento de novos modelos pedagógicos que realmente o aluno possa aprender no seu tempo, do seu jeito, onde quiser seja na sala presencial seja em um ambiente virtual.
Quando essas novas salas de aula serão realidade? Há projeto para expandir esse projeto para o ensino básico, por exemplo?
Essa nova sala de aula já está montada no nosso espaço de inovação no Rio de Janeiro, e após a produção dos 100 primeiros equipamentos, serão implantadas nas novas unidades a partir de 2015. Nosso foco é ensino superior, mas nada impede que possamos inspirar e ajudar a outras escolas.
Que conselho você daria para jovens que ainda têm dúvidas sobre os caminhos profissionais a seguir? Tem algumas áreas que você aponta como a(s) mais promissora(s)?
Buscar uma formação de qualidade, que passe a base necessária para enfrentar esse mercado cada vez mais competitivo. E acreditar que tudo é possível para quem se dedica a um propósito. Como disse Peter Drucker, a melhor maneira de prever o futuro, é criá-lo.

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