Orgânicos: Um mercado promissor

Um estudo inédito da multinacional inglesa DUNNHUMBY, empresa de marketing especialista em ciência do consumidor, mostra um momento promissor para alimentos saudáveis no Brasil e os produtos orgânicos entre os que podem ganhar nesse contexto. 
De acordo com os dados, o índice de brasileiros que prefere comprar esse tipo de produto (58%), quando tem a opção, é maior que o registrado nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde não chega a 30%. 
Uma demanda potencial que alimenta perspectivas de crescimento para produtores, inclusive os pequenos que atuam no Rio Grande do Norte.

Em Gramorezinho, comunidade agrícola que engloba áreas na Zona Norte de Natal e em Extremoz, dezenas desses produtores estão ávidos por aumentar a fatia que mordem no mercado. No Brasil, o faturamento do setor – um dos símbolos de práticas sustentáveis – deve alcançar R$ 2 bilhões este ano, 35% a mais que em 2013.
Após conquistarem novos patamares de preços e lugar em feiras, agricultores familiares que trocaram o sistema convencional de produção pelo orgânico na comunidade se estruturam para buscar espaço nas gôndolas dos supermercados e na mesa dos restaurantes.
“É uma das metas para 2015”, diz o presidente da Associação dos Amigos Produtores de Guamoré e Adjacências (Amigs), que reúne os produtores, Jorian Gomes, 43. A associação reúne 120 famílias de agricultores. Metade desse contingente obteve em outubro uma certificação essencial para que vendam também ao varejo. Antes, eles só podiam comercializar ao consumidor final, por meio de feiras, por exemplo.
Fornecimento

Definir estratégias para garantir volume e regularidade de fornecimento é o novo passo que estão dando.“Sabemos que é preciso ter quantidade. Vamos fazer um calendário de produção para ter escala e garantir que não falte produto”, diz o presidente da Amigs, Jorian Gomes.
Antes de bater a porta de novos mercados, os agricultores também negociam a implantação de um “packing house”, área para lavar, embalar e fazer a expedição dos produtos.
“Eles já aprenderam a produzir. Agora precisam dar esse novo passo, que é a adaptação para o mercado. É preciso ter um nível de apresentação melhor, embalagem padronizada e o produto bem acondicionado para chegar ao supermercado”, observa José Ronil Rodrigues Fonseca, gerente da Unidade de Desenvolvimento Territorial e Agronegócios do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa no RN (Sebrae), que ajuda a orientar o processo.
O packing house, estima ele, demandaria R$ 500 mil para viabilizar construção e estrutura dentro dos padrões exigidos em lei. “O projeto já foi elaborado e a associação está tentando captar o recurso junto à Petrobras”, diz. Procurada pela reportagem, a estatal não respondeu, até o fechamento da edição, a questões sobre o projeto.
Diversidade e preços melhores animam agricultor

A produção orgânica em Gamorezinho catapultou a remuneração dos agricultores e diversificou o cultivo na área. Quando atuavam no sistema tradicional, o foco era praticamente restrito a alface, pimentão e cebolinha. Agora, dezenas de outros produtos são colhidos em algumas hortas – todos produzidos de forma orgânica.
A mudança foi protagonizada por agricultores como Ivonete Barbalho, 39, e José Maria Filho, 41, que são casados e cresceram vendo os pais, também agricultores, usarem agrotóxicos. O jeito de produzir, à base de produtos químicos, foi uma “herança” que aboliram e não desejam retomar. “Veneno nunca mais”, garante Ivonete.
“Antigamente eu pegava o adubo de galinha, que tem química por causa da ração, e rebolava em cima (das plantas). Quando vinha praga, eu metia veneno. Não tinha medida para colocar. E muitas vezes nem lia o rótulo”, lembra. “Produzir orgânico é mais difícil, mas é melhor para a saúde de todo mundo”, diz o marido.
O casal cultiva hoje abobrinha, carambola, macaxeira, batata, acerola, berinjela, beterraba, rúcula, rabanete, mamão, banana, couve, além dos produtos tradicionais, cujos preços melhoraram com a venda direta ao consumidor. O pé de alface, por exemplo, que era vendido por R$ 0,15 ao atravessador, hoje rende R$ 2 com a venda em feiras de produtos orgânicos. Ivonete se mostra animada. “Quem diria que com um cento de alface eu ia fazer R$ 200?”.

Para a promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Gilka da Mata, “os agricultores estão compreendendo que a proteção do meio ambiente do local está diretamente relacionada com a melhoria de sua situação econômica e social”.
Novas práticas reverteram contaminação

Investir na produção orgânica tem rendido bons frutos a Gramorezinho e foi a solução encontrada para resolver um problema alarmante: o uso indiscriminado de agrotóxicos na área estava contaminando a água – quadro já revertido, segundo o Ministério Público.
 “A área conhecida como Gramorezinho é de grande riqueza hídrica. Temos no local quatro lagoas e o Rio Doce, de cujas margens (manancial subterrâneo) a Caern tem extraído água para abastecer a população que mora na Zona Norte de Natal”, diz a promotora de Justiça  Gilka da Mata, que está à frente do projeto “Amigo Verde Gramorezinho”, desenvolvido desde 2012 pelo Ministério Público, em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e o Sebrae.
“A riqueza hídrica da área estava sendo ameaçada pela contaminação por agrotóxicos e adubos químicos. Para preservação desses recursos e recuperação da área ameaçada ou já contaminada, a solução técnica foi alterar a forma de produção”, acrescenta Gilka.
O projeto também conta com parceria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – na parte de análises laboratoriais – assim como da Petrobras. Por meio de patrocínio, a estatal ajudou a garantir, durante um ano, uma ajuda de custo mensal de R$ 400 para cada agricultor que estivesse migrando para a produção orgânica. 
Os recursos também serviram para a Associação adquirir um carro e uma motocicleta e, ainda, para pagar a dois técnicos agrícolas para darem suporte aos agricultores durante dois anos, e para custear uma auditoria realizada por uma empresa certificadora  nacional. A auditoria avaliou se a produção de orgânicos estava de acordo com a legislação pertinente. 
Para que ocorresse a mudança no sistema de cultivo, os agricultores tiveram que participar de oficinas e palestras para aprenderem a realizar a compostagem (que é um adubo natural), o biofertilizante e outras técnicas de plantio que incluem a rotatividade de culturas e o descanso do solo, essenciais para o cultivo orgânico. “Foi preciso fazer uma desintoxicação na área”, diz Gilka.
Além de poder causar danos à saúde do usuário, a manipulação errada e irresponsável de agrotóxicos prejudica o meio ambiente com contaminação do solo, nascentes, rios, lagos, e intoxicação de animais e espécies vegetais que não são alvo do produto, alerta a Embrapa Hortaliças.

InCultura e mudança
Habituados com sistemas de produção usados há décadas, agricultores de Gramorezinho pensaram que “iriam morrer de fome” se mudassem a forma de cultivo. “Ninguém sabia o que era orgânico. Quem diria que água de bosta de gado ou adubo de ostra dá força às plantas? Mas dá”, diz o agricultor José Vieira Alves, conhecido na área como “Didi”. “Achávamos que íamos morrer de fome se desse uma praga, mas aprendemos a trabalhar o controle natural delas e que quando muda o solo para melhor muda tudo”.
ovação e ganhos
O modelo de produção orgânica não está restrito ao cultivo de alimentos. Em Gramorezinho, outra área em que os agricultores estão investindo, sem o uso de agrotóxicos, é na de plantas ornamentais. A produtora Ivone Vieira, 47, é uma das que estão ganhando. A produção inclui, por exemplo, orquídeas e roseiras. “Vendia orquídeas por R$ 1, em garrafas pet. Mas comecei a fazer diferente: troquei as garrafas por  vasos e hoje consigo até R$ 45 com o mesmo produto”, diz.

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