Caminhando de volta para a redação dias atrás, cruzei com dois garotos com fardamento escolar brincando na rua. Um eles, de uns 10 anos, disparou para o outro: “Não mexe com minha mãe! Aqui é o Sindicato”. Em seguida os dois riram e tomaram seu destino.
O menino se referia ao Sindicato do Crime do RN (SDC). Obviamente ele não faz parte da organização, mas a cena mostra o quão popular se tornou a facção e o quanto esteve em evidência durante os ataques ocorridos no Rio Grande do Norte nesta semana.
O SDC tem origem em Natal e é um dos responsáveis, ao lado do Primeiro Comando da Capital (PCC) e da Massa Potiguar, por arquitetar e operar os atentados que vêm acontecendo desde o dia 29 de julho, segundo apontam as investigações das células de segurança pública do Governo do Estado.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Sindicato do Crime do RN dividem o controle das penitenciárias e têm integrantes espalhados por todo o Rio Grande do Norte. Informações obtidas pelos agentes penitenciários através de relatos de presos e apreensões de telefones e cartas dentro das unidades detalham a atuação e a estruturação dessas facções.
Com o episódio dos ataques e o vazamento de vídeos da população carcerária, apareceu um novo nome entre os agrupamentos criminosos: Massa Potiguar. 
De acordo com Vilma Batista, presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sindasp), a Massa é composta pelos presos antes chamados neutros, os que não pertenciam nem ao PCC, nem ao SDC, e também de alguns dissidentes das duas facções.
A sindicalista afirma que a Massa Potiguar ainda não tem organização estrutural, como as demais, no entanto, caso o Estado não tome providências para desarticulação do grupo, que ainda é somente uma denominação, pode perder o controle. “Pode crescer”.
Todos os dados coletados pelos agentes são enviados para a o setor de Inteligência das secretarias competentes pela segurança pública e pelo sistema prisional, para que sejam iniciadas investigações para coibir essas articulações.
Desde a série de assassinatos ocorrida dentro das penitenciárias no ano passado, o Governo do Rio Grande do Norte reordenou as acomodações dos presos dentro de cada unidade, os agrupando por facção: PCC ou Sindicato. 
Apesar de a medida ter sido tomada com a intenção de coibir os ataques entre os rivais, acabou auxiliando na articulação dos criminosos. Perto um do outro, eles conseguem planejar de maneira mais rápida as suas ações.
As facções funcionam como uma espécie de associação, onde se paga mensalidade em troca de benefícios. Além de pagar, os filiados precisam cumprir ordens e dividir o dinheiro que venham a ganhar no crime quando saem da cadeia. Depois da filiação, não tem como rasgar a carteirinha.
No RN, espalhado por todo o território, é o Sindicato do Crime, organização criminosa que tem origem no bairro de Mãe Luíza, que possui a maior quantidade de adeptos. 
A facção tem mensalidade fixa, presta assistência médica e jurídica a seus associados e ainda realiza rifas com prêmios de alto valor para os presos. De acordo com os dados obtidos pelos agentes penitenciários, enquanto o PCC já está presente do Rio Grande do Norte já há alguns anos, presença que era insistentemente negada pela Polícia Militar, o SDC foi fundado em 2013.
As cartas trocadas entre os detentos e o próprio estatuto da facção dão conta de que a organização criminosa começou com Isaac Heleno da Cruz, o Rivotril, que morreu em 2014 após ser baleado numa incursão da Polícia Militar. 
Rivotril, oriundo do bairro de Mãe Luiza, onde segundo a polícia ele mantinha sua atuação criminosa, teria brigado com integrantes do PCC e resolvido iniciar sua própria facção.
O criminoso foi então espalhando as ideias entre os presidiários, inicialmente os que cumpriam pena na Cadeia Pública de Natal e no Presídio Estadual de Parnamirim (PEP), onde iniciaram as confusões após a instalação dos bloqueadores de telefonia móvel e deram início à onda de atentados.
Rivotril e seus aliados atuavam onde o Estado não chegava. Davam auxílio de saúde aos detentos e familiares, auxílio financeiro e até custeavam advogados para acompanharem os processos dos filiados. Tudo com o dinheiro das mensalidades, que têm valores variados.
As informações dos documentos apreendidos nas prisões dizem que os o valor varia atualmente entre R$ 100 e R$ 200 para quem está em reclusão. Os valores são pagos através de contas na Caixa Econômica Federal, com a ajuda de familiares e conhecidos.
Ao ganharem liberdade, ou entrarem no regime semiaberto, os presidiários pagam até R$ 400, a depender de suas condições, e também precisam dar parte do dinheiro que conseguem na atividade criminosa do lado de fora.
Ainda de acordo com as apreensões e depoimentos de presos, quem não pode arcar com os custos mensais dentro da prisão nem com apoio dos familiares, precisa realizar tarefas determinadas pelos líderes de seu pavilhão. Isso implica em lavar as roupas deles e até assumir o porte de drogas encontradas em revistas.
Do lado de fora, as “missões”, como eles denominam, podem ser determinadas tanto aos que têm o dinheiro da mensalidade quanto aos que não têm. Comumente dizem respeito à prática de crimes, como participação em roubos e assassinatos.
Periodicamente, mais precisamente um domingo por mês, os líderes promovem sorteios de rifas. O custo, pago em casas lotéricas por pessoas de fora da prisão, varia entre R$ 10 e R$ 25, e os prêmios entre quilos de maconha e carros.
Organização tem vários líderes, promove assistencialismo e é gerida a partir dos presídios do estado
Apesar da penetração do Sindicato no estado, a inexperiência organizacional depõe contra o grupo. Segundo Vilma Batista, a facção tem muitos líderes, o que descontrola e desordena suas ações. O juiz Henrique Baltasar, que por anos comandou a vara de Execuções Penais em Nísia Floresta, acredita que o SDC não tem condições de realizar os atos que vêm ocorrendo no RN sozinho. Para ele, há gente que conhece do sistema de vigilância por trás dos crimes. Isso porque, de acordo com o juiz, os ataques são muito articulados para terem sido planejados pelos integrantes do SDC. O magistrado acredita que tem gente ganhando muito dinheiro com o mercado de entrada de celulares nos presídios, e os bloqueadores atrapalhariam esse comércio.
A norma da Polícia Federal que determina que tipo de organização é considerada Crime Organizado exclui o SDC. No Brasil, somente o PCC preenche os requisitos, que incluem ter rede nacional e internacional de atuação, bem como uma hierarquia bem definida.
Sendo assim, o SDC sem enquadra como Organização Delinquencial. De todo modo, os criminosos que integram este grupo têm o seu jeito próprio de ordenar o funcionamento de suas atividades.
Para se articularem entre si, os detentos do Sindicato do Crime criaram uma estrutura de funções de confiança a serem desempenhadas pelos membros. Existe o “financeiro”, que cuida de toda a parte de contabilidade. É uma espécie de contador que informa há no caixa e quanto é necessário conseguir para financiar ações como as que estão acontecendo no RN. Há ainda o “sintonia”, que é responsável por repassar as informações e comandos aos membros do Sindicato. Existe um presidiário que cumpre a função de articulador, que vai até os presos para incentivá-los à filiação e a participarem das ações.
Outro homem fica responsável por dar assistência aos familiares dos detentos, e cuidar para que eles não fiquem desguarne-cidos do lado de fora dos presídios. Existe a função do que tem a competência de fazer o contato com os advogados, para solicitar demandas dos líderes.
As apreensões e depoimentos mostram também que há uma espécie de apaziguador. Trata-se do preso responsável por resolver os entreveros entre filiados ao Sindicato do Crime.
Em estados vizinhos ao RN há também grupos semelhantes, que se opõem ao PCC. Na Paraíba, por exemplo, Okaida e Estados Unidos coexistem e se degladeiam na disputa pelo tráfico de drogas.
Como o SDC é uma facção formada recentemente, ainda de acordo com o material apreendido pelos agentes, tem acontecido uma espécie de intercâmbio com os vizinhos. Os filiados potiguares não costumavam praticar delitos de maior proporção, como assaltos a banco, porém tem procurado aprender o ofício criminoso com os aliados.